Senhor Mestre Engenheiro Filipe Freitas!
Desde o dia 30 de Dezembro de 2009 que me podem tratar de Senhor Mestre Engenheiro Filipe Freitas!
Este dia marca o cumular de quase 20 anos de estudo (80% da minha vida), e posso dizer que a recompensa do trabalho é uma das coisas mais agradáveis que se pode ter.
Passei por inúmeras dificuldades para chegar a este dia, tanto pessoais e financeiras, como também tive que adiar muita coisa que gostaria de ter feito, e posso dizer que uma das lições da vida de estudante é aprender a diferenciar as coisas que são realmente importantes. É certo que a nossa vida de estudante passa num instante e que é preciso gozar enquanto se pode, no entanto, esta é, talvez, a parte mais importante da vida pois é neste perÃodo que é definido o potencial para uma vida de sucesso. Uma vida de sucesso não é só um salário chorudo no final do mês, é também poder-se fazer o que se gosta todos os dias, tentar progredir e ser melhor de uma forma agradável, e o mais importante: ter possibilidades de realizar os seus desejos, por exemplo, viajar.
Foram estas as preocupações que tive e que tenho tido desde estes últimos 9 anos, desde aquele fatÃdico verão de 2000 em que começei a minha vida profissional com um trabalho de verão numa serralharia metalúrgica ao lado da minha casa. Finalmente com 16 anos, fui obrigado pelos meus pais a ir trabalhar para ver o que custava a vida e ver como tão pouco valiosa era a mão de obra desqualificada. O trabalho em si não era pesado, no entanto, passava o dia sujo, no barulho, rodeado de idiotas e mandriões, as tarefas nem sequer desafiavam o meu raciocÃnio, e não me lembro qual era o salário mÃnimo na altura mas eu não o recebia de certeza. Além disso, um acidente de trabalho estava ao virar de cada esquina.
Enquanto que o final das “férias” era depressivo para os meus amigos, para mim era um perÃodo de alÃvio em que só pensava em estudar e fugir daquela vida sem reconhecimento, prazer ou segurança financeira. Durante 3 verões assim foi. Pode ser comum os pais oferecerem prendas (por exemplo, bicicletas) aos filhos por passarem de ano ou terem boas notas, mas posso dizer que arranjarem um emprego de verão aos filhos é a melhor coisa que podem fazer. Além de abrirem os olhos aos filhos, estes crescem com estas experiências e começam cedo a construÃrem um currÃculo, e assim terem mais oportunidades no futuro. Mais ainda, os filhos aprendem ou aperfeiçoam a gestão do dinheiro que ganham, e vêm o quão facilmente este se evapora.
Por si só, estes “incentivos” não foram suficientes para me tornarem num estudante dedicado e, por isso, ainda passei por dificuldades no ensino secundário (bons tempos do Quake3..), tendo escolhido realizar o 12º em 2 anos para acabar as disciplinas em atraso e realizar os exames de ingresso para a Universidade com mais tranquilidade. Neste perÃodo, tive a sorte de conhecer a minha namorada (e futura esposa) e devido a certos factores, consegui adoptar capacidades de estudo que se tornaram nas fundações para a Universidade.
Assim, com a junção de todos estes factores, consegui atingir os os meus objectivos e ingressei no curso pretendido, na Universidade de Aveiro, juntamente com 2 vizinhos e amigos de infância. No ano seguinte, a minha namorada juntar-se-ia a mim na vida académica. Receava que não tivesse capacidade para realizar um curso superior, especialmente de engenharia, pois toda a gente vê a falta de beleza das equações e gráficos que aparecem nos quadros das salas de aulas nos filmes. Felizmente, a mente humana é uma maravilha da Natureza e é capaz de se adaptar a tudo, e rapidamente me apercebi que não havia razões para recear falhar.
O meu ano de caloiro foi um ano cheio de experiências, alegrias e poucas desilusões. Pode não parecer (devido às palhaçadas), mas as praxes têm razão de ser e são muito importantes para o resto do curso. É nas praxes que conhecemos os nossos colegas e formamos laços de amizade, muito importantes para entre-ajuda durante o curso. Muitas vezes troquei informações preciosas sobre trabalhos ou testes pelo MSN (com professores também!).
Muitos estudantes queixam-se que a maior parte das cadeiras dos cursos são pouco objectivas, ou mesmo inúteis, e que a matéria aprendida será rapdimente esquecida e nunca será utilizada. Com um curso concluÃdo e já a trabalhar há algum tempo, posso dizer que a matéria é a coisa menos importante que se pode aprender na Universidade. O objectivo da Universidade é aprender três coisas: aprender a aprender, gerir tempo, e trabalhar em equipa. Estas são as ferramentas essenciais para enfrentar os desafios de um emprego. Mudar totalmente de área de conhecimento entre semestres? É mudar de projecto no emprego. Ter algumas semanas para estudar para vários exames? É conseguir atingir os objectivos no emprego a tempo e horas. Fazer um trabalho de grupo numa cadeira? É fazer parte de uma equipa de trabalho no emprego. A Universidade é, assim, como se aprende, e não o que se aprende.
Durante a Universidade, é possÃvel realizar parte do curso no estrangeiro com apoio financeiro (Erasmus). Apesar de não ter realizado Erasmus, é minha opinião que é algo que todos os estudantes devem fazer pois uma experiência destas é uma oportunidade única na vida de conhecer intimamente outras linhas de vida. Digo isto, pela opinião de quem já fez, e por uma experiência próxima que tive. Após o meu 2º ano, tive a oportunidade de trabalhar um verão na Suiça (empregado de balcão numa pastelaria de uma estação ferroviária), com 2 dos meus melhores amigos e até agora foi uma das melhorias experiências que já tive. Conhecer uma cultura diferente, pessoas de todo o lado, ver paisagens e arquitecturas diferentes, conviver com amigos, explorar.. palavras não chegam para descrever tal coisa. É uma oportunidade para ver como as coisas são diferentes de onde vivemos, e voltamos cheios de ideias e com novos objectivos, e com vontade de partir explorar o resto da Europa.
Devido a não pensar muito fora do curso e já ter bastante experiência profissional (no meu caso), um estudante pouco pensa em construir um currÃculo desde cedo. Tudo isto mudou no 3º ano, quando um professor de uma cadeira aborrecida (peço desculpa Professor) decidiu pensar nos seus alunos e não na sua aula. Assim não deu a aula, mas sim levou os seus alunos a uma apresentação da competição internacional Imagine Cup, exclusiva para estudantes universitários, e do programa Microsoft Student Partners (MSP), também para estudantes universitários. Foi a primeira vez que tive um contacto tão directo com uma empresa, e logo uma das maiores e mais conceitudas do Mundo. Provavelmente devido a sorte, consegui muito bons resultados no Imagine Cup e fui escolhido para MSP de Aveiro, e isso marcou o inÃcio da minha obcessão em construir o melhor currÃculo possÃvel para poder ter o poder de escolha quando fosse altura de procurar emprego. E consegui. O meu currÃculo interessou empresas como Novabase, Capgemini, PT Inovação e algumas empresas locais. É certo que um currÃculo não vale um emprego, mas vale uma oportunidade, e isso é algo que apenas tendo um curso não garante.
Não me posso exprimir sobre a realização de um estágio curricular, mas a realização de uma dissertação em nada se assemelha a realizar um trabalho para uma cadeira. Basicamente, é uma simulação quase real de um emprego: pouco tempo, muita coisa a fazer, muita coisa a aprender, alguém a chatear. O tempo necessário para realizar uma dissertação aumenta de forma exponencial de acordo com a aproximação do prazo de entrega e a dissertação nunca estará completamente terminada, o que é muito frustrante. Cometi o erro de deixar a maior parte da escrita para o fim, e isso significou menos disponibilidade dos meus orientadores para corrigirem e mais noitadas da minha parte (com um emprego a tempo inteiro em paralelo). Tive que fazer muitos sacrifÃcios pessoais, como não sair com os meus amigos ou dar pouca atenção à minha namorada, o que me custou bastante.
Assim, no dia 30 de Dezembro de 2009, acabou tudo em apenas 1 hora e com 5 pessoas: 4 jurados e eu. Tinha passado a semana anterior a treinar constantemente, ao ponto de escrever e memorizar um texto para cada slide de forma a ter um discurso fluÃdo e garantir que não me esqueceria de nada, e desta forma estar menos nervoso durante a defesa. Isto traduziu-se em utilizar apenas 14 dos 20 minutos disponÃveis. Fiquei muito desiludido com a qualificação que deram ao meu trabalho pois, apesar de estar longe de perfeito, tive muito trabalho e inovei bastante. No entanto, esta desilusão foi rapidamente conquistada pela satisfação de atingir um objectivo criado há tantos anos atrás e de verdadeiramente marcar o ponto de transição entre estudante e trabalhador.
Tudo isto para dizer que a vida é cheia de lições, desilusões, sacrifÃcios e muito trabalho, e que tudo nos ajuda a crescer. A minha conclusão: valeu a pena.







